sexta-feira, 4 de maio de 2012

“Tenho autonomia para dizer não à Globo”, diz Cláudia Abreu


Em 'Cheias de Charme', a atriz vive uma cantora espevitada de eletroforró. Foto: Rede Globo/Divulgação
Em ‘Cheias de Charme’, a atriz vive uma cantora espevitada de eletroforró
Cláudia Abreu garante que tem autonomia para dizer não à Globo. A certeza dessa independência artística fica evidente ao analisar a carreira da atriz, que este ano completa 26 anos de televisão e conta com inúmeros convites e apenas 13 novelas no currículo. Com uma lista de recusas que inclui desde minisséries de sucesso como Hilda Furacão, de 1998, novelas como América, de 2005, e Beleza Pura, de 2008, Cláudia está longe da tevê desde a fracaTrês Irmãs, exibida naquele mesmo ano. “Não tenho nada contra a TV. Mas tive outras prioridades ao longo da vida. Em alguns momentos estava mais para o cinema, outros para o teatro. Fora isso, hoje sou mãe de quatro filhos. Isso pesa na escolha dos meus trabalhos”, conta a mãe de Maria, Felipa, José Joaquim, e do pequeno Pedro Henrique, de apenas seis meses de idade.
Com saudade dos estúdios, ela confessa que estava esperando “o papel” para voltar a gravar, e que viu esse potencial em Chayene, a espevitada rainha do eletroforró de Cheias de Charme. “Gostei da personagem de cara. Ela tem um frescor e estava precisando disso”, explica.
A carioca Cláudia Abreu teve o primeiro contato com as Artes Cênicas, com apenas 10 anos de idade, no Teatro Tablado – tradicional escola de teatro carioca, fundada por Maria Clara Machado. A TV surgiu na vida da atriz cinco anos depois, ao passar em um teste na Globo. A partir daí, emendou novelas como Hipertensão, de 1986,O Outro, de 1987. “A partir dos anos 90 eu fui escolhendo mais os projetos. Chega uma hora que se você começar a fazer tudo o que aparece, acaba se repetindo. Este nunca foi o meu objetivo”, ressalta.
TV Press – Você está distante das novelas desde Três Irmãs, de 2008. O que a fez acertar sua volta emCheias de Charme? 
Cláudia Abreu – No geral, a linguagem divertida e o alto teor de novidade da trama me instigaram. Falar das relações entre empregadas e patroas não é nada novo. Mas, pelo contexto da novela, é ousado. Acho a ideia de variar um pouco a figura da protagonista muito válida. Hoje em dia, essa troca está muito evidente. Fora que a Chayene é daquelas personagens irrecusáveis. É totalmente diferente de qualquer coisa que eu tenha feito. É uma figura acima do tom, que corre por fora do naturalismo. Então, é possível fazer um bom trabalho de composição. Posso mostrar com ela outra forma de interpretar.
TV Press – O forte apelo musical da personagem foi importante para aceitar o convite? 
Cláudia – Eu queria sair da minha zona de conforto. Não queria nada óbvio. Ao fazer uma personagem que, além de interpretar, canta e eventualmente dança, tenho a sensação de que estou trabalhando de uma forma mais completa. É um exercício de versatilidade. Acho que precisava disso depois de ficar tanto tempo sem gravar e sem ensaiar um espetáculo.
TV Press – Já pensou em construir uma carreira paralela de cantora? 
Cláudia – Não, nunca! Quem sou eu para querer uma coisa dessas? Não tenho talento e nem tempo (risos).
TV Press – Mas gosta do que está vendo e ouvindo na novela? 
Cláudia – Sou extremamente autocrítica. Acho que agora eu consigo assistir a uma cena minha de forma menos dolorosa. Mas me ouvir na TV é novo e ainda não estou gostando. Essa personagem me deixa ainda mais atenta a todas as marcações e nuances durante a cena. Eu gosto de cantar, não sou uma Marisa Monte, mas me viro. A própria Chayene também não tem uma grande voz, então serve a minha mesmo (risos).
TV Press – Depois de cantar no teatro e em filmes, como O Caminho das Nuvens, de 2007, esta é a primeira vez que você canta na televisão. Procurou se preparar de alguma forma especial para a Chayene? 
Cláudia – Faço aula de canto há muito tempo, mas estava parada há uns cinco anos. Retomei as lições com o preparador vocal Vitor Prochet de forma intensa. Querendo mesmo trabalhar a voz. Além disso, tenho ajuda do Danilo Tim, que auxilia nas cenas musicais da novela. Ele cuida muito bem de mim, do (Ricardo) Tozzi e das “empreguetes”.
TV Press - Cheias de Charme tem três protagonistas. Mas, geralmente, a figura da vilã domina as telenovelas brasileiras. Acha que a Chayene pode roubar a cena no decorrer da trama? 
Cláudia – Toda vilã tem seus encantos. Mas Cheias de Charme é o tipo de novela que tem espaço para todo mundo. Não escolhi fazer a Chayene pensando na possibilidade de tomar a novela. Aliás, o tamanho e a repercussão das minhas personagens nunca me importaram tanto. Não tenho essa vaidade, quero apenas que o papel seja bom, coerente com a trama. Se for bom, vai ter seu destaque.
TV Press – A Chayene tem altas doses de humor. Acha que essa é a diferença básica entre ela e a Laura, deCelebridade (2003), sua vilã mais famosa? 
Cláudia – O humor deixa a Chayene mais leve. Ela é uma vilã diferente. Ao contrário da Laura, a Chayene não é do tipo que fica se ocupando em fazer maldade, não é movida por uma vingança. Ela é egocêntrica, tem uma vaidade enorme. Então, quem estiver atrapalhando o caminho dela, ela meio que passa por cima. É daquele tipo de gente grosseira, que maltrata a empregada. É mais por aí a maldade dela. Por isso, acho que ela foge um pouco do perfil comum das vilãs.
TV Press – Ao longo de sua carreira você já declinou de convites para diversos trabalhos. Inclusive, para protagonizar novelas como América, de 2005, e Insensato Coração, de 2011. Chegou a se arrepender de ter recusado algum personagem? 
Cláudia – Às vezes um não vale mais que um sim. O tempo vai passando e você deixa algumas oportunidades importantes de lado em detrimento de outras. Não sou de ficar chorando pelo que não quis fazer. E para trabalhar em novelas, só gostando e estando realmente envolvida no processo. É uma delícia, ao mesmo tempo em que também é desgastante. Então é essencial eu querer muito trabalhar naquilo.
TV Press – A novela Barriga de Aluguel, um de seus primeiros trabalhos de destaque na TV, está sendo reprisada pelo canal pago Viva. Chegou a ver alguma cena? 
Cláudia – Passa muito tarde. Mas de vez em quando eu dou uma olhada. Fiz questão de ver o primeiro capítulo e foi engraçado. Faz muito tempo, né? Tenho um certo estranhamento ao me ver. Até hoje é assim. Melhorei muito, mas ainda sou preocupada. Vida de atriz tem muita exposição para você achar que está tudo fluindo bem. O rigor me ajudou a lidar com esses anos de carreira. É preciso ter cuidado ao aparecer na frente da TV, invadir a casa das pessoas. Olhar para trás me dá uma satisfação enorme. É isso que sinto ao ver a novela da Glória (Perez).
TV Press – Este ano você completa 26 anos de televisão. Em qual momento da carreira você começou a acreditar que estava no caminho certo? 
Cláudia – Não sei se existe um momento. Carreira na TV acontece de forma natural. Desde Hipertensão até agora, tive altos e baixos, personagens memoráveis e outros esquecíveis. Mas, sobretudo, acho que fui me aprimorando e ficando cada vez mais criteriosa e curiosa. Ter curiosidade é essencial para não ter que cair no lugar-comum dos mesmos tipos. Fui amadurecendo mesmo na frente das câmaras.

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