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Suburbana, ‘Avenida Brasil’ é visão exagerada sobre classe C

'Avenida Brasil' traz o futebol na trama das 20h. Foto: TV Globo/Divulgação
‘Avenida Brasil’ traz o futebol na trama das 21h
É impossível prever o sucesso de uma novela. No entanto, é possível reciclar e reutilizar artifícios já testados para tentar conquistar o público e obter o esperado êxito comercial. A primeira impressão sobre Avenida Brasil, nova novela das 21h da Globo, é a de que foram reaproveitadas tramas parecidas, já vistas à exaustão.
Não é a primeira história baseada na mocinha vingadora que foi maltratada pela madrasta cruel. Porém, o mérito do folhetim reside na abordagem policialesca e cheia de reviravoltas imposta pelo autor, João Emanuel Carneiro. O escritor vai construindo aos poucos uma trama ardilosa, cheia de bons diálogos e atuações. Nas primeiras cenas, a trinca formada por Adriana Esteves, intérprete de uma ambiciosa Carminha, Tony Ramos, na pele do iludido Genésio, e da pequena e sensível Rita, de Mel Maia, renderam a mistura exata entre drama e tensão, alimentada por uma trilha coerente com as sequências violentas e de tons realistas desta primeira fase do folhetim.
Mas nem tudo é denso no caminho de Avenida Brasil. Depois do sucesso de audiência da trama anterior, Fina Estampa - com média acima dos 40 pontos no ibope -, a Globo não disfarça sua intenção de manter os mesmos resultados. Popular, e por vezes estridente, a nova novela aposta em personagens exagerados e parece feita sob encomenda para agradar – e refletir – o tão comentado crescimento da classe C. Isso afeta a trilha sonora, que agrega nomes como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e José Augusto, até a música de abertura, com a dançante e descartável Vem Dançar Kuduro.
Com os endinheirados em segundo plano, o autor calçou toda a história no fictício bairro do Divino, localizado às margens da Avenida Brasil – estrada que corta a cidade do Rio de Janeiro, do Centro à Zona Oeste. É de lá que saem as principais tramas paralelas e indubitavelmente ligadas à comédia. É dentro deste setor popular que se encontra mais um chamariz popularesco da novela: o futebol. E é na pele do jogador do Flamengo, Tufão, de Murilo Benício, que o esporte ganha corpo e se torna referência.
A engenhosa história criada pelo autor de nada adiantaria sem uma boa equipe de produção. Com direção geral e de núcleo de Ricardo Waddington, nota-se certa evolução no olhar do diretor, sobretudo nos clímax de tensão e cenas de ação. Outro ponto que chama a atenção é a interferência da diretora Amora Mautner. Parceiros profissionais em trabalhos como Cama de Gato, de 2009, e Cordel Encantado, de 2011, a dupla retoma a estética e o andamento rápido desses projetos nas sequências de Avenida Brasil. Por se passar no subúrbio, nas tomadas de apresentação também é possível perceber uma direção de fotografia mais crua e com destaque para a luz que evidencia as sombras, claramente inspirada em filmes como Cidade de Deus eCarandiru.
No quesito elenco, qualquer novela global das nove tem à sua disposição os principais atores da casa. Isso se repete em Avenida Brasil, com o peso de ser a segunda novela de João Emanuel – criador de A Favorita, de 2008 – no horário, o elenco parece integrado à “pegada” diferente defendida pelo autor.
Em personagens que pouco lembram seus trabalhos recentes, Adriana Esteves encara uma vilã bem mais sagaz que a Sandrinha de Torre de Babel. Assim como Débora Falabella – como a vingativa “condessa do monte de lixo” da trama – tem a chance de se despedir da imagem “boazinha” conquistada pelas mocinhas que defendeu. Em campo para marcar gol, Avenida Brasil tem tudo para alinhar uma história interessante, com direção caprichada e bons números de audiência.

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